Movimentos como a globalização e responsabilidade sócio-ambiental ganharam espaço em velocidade e dimensão sem precedentes, enquanto que um movimento de multiculturalismo ainda está muito aquém do seu potencial de oxigenar a Gestão Empresarial. Um paradoxo, uma vez que os dois primeiros movimentos poderiam se alimentar do último e vice-versa.
Como cultura entendemos as crenças e comportamentos transmitidos de geração a geração, através da educação. Um condicionamento que traz consigo o risco de atrofia biológica e miopia cultural; é como na agricultura: monocultura apodrece o solo.
Por que não romper com esta visão “próprio umbigo” e partir para uma perspectiva multicultural, começando aqui no Brasil, que abre espaço para uma maior compreensão e empatia por grupos marginalizados, como os índios – “legítimos donos do Brasil”, e os negros - co-criadores da riqueza no Brasil.
A oxigenação que cada pessoa pode oferecer por conta de sua diferença cultural é a chave da inovação, hoje reconhecida como uma competência central da Gestão Empresarial. O espectro do multiculturalismo, olhando os cinco continentes, evidencia um prisma colorido de etnias, raças, culturas e habilidades físicas, composto da seriedade européia, do pragmatismo americano, da flexibilidade latina, da veia comercial árabe, da sabedoria oriental, da humildade africana e da modernidade australiana.
Dada a dificuldade que muitas empresas têm para lidar com questões multiculturais, pretendo sugerir aqui algumas linhas de ação da inclusão multicultural na cultura corporativa.
A internacionalização traz oportunidades de contatos que superam fronteiras e reduzem distâncias, formando uma rede interativa entre os povos, através da crescente mobilidade das pessoas, facilitada pela Tecnologia da Informação e Comunicação; basta seguir com abertura mental e mobilidade comportamental para evitar ficar rico em dados e informações multiculturais, mas pobre em conhecimento e compreensão multiculturais. É uma questão de competência de adaptação.
Nesta perspectiva, é necessária uma Gestão Empresarial que integre a diversidade cultural de tal forma que permita combinar a preservação da identidade cultural com a participação em um mundo interrelacionado. Chegou o momento de pensar globalmente, aprender internacionalmente e agir localmente. Empresas que querem, podem e/ou precisam competir em um mercado global têm necessidade de profissionais que conheçam culturas do mundo lá fora e que “apanham, aprendem e avançam” com elas.
No âmbito individual, a Internacionalização é um convite atrativo para o profissional que é aberto a incorporar outras culturas no seu modo pensar, sentir e agir, na medida em que virtudes de outras culturas possam embasar seu crescimento pessoal e profissional.
No âmbito empresarial, as práticas de diversidade multicultural visam medidas que promovam a diferença racial, mental e comportamental entre pessoas, como um valor a ser desenvolvido em benefício da inteligência corporativa.
Para transformar a gestão da diversidade multicultural em um diferencial da Gestão Empresarial, aqui algumas dicas.
Estude História, Geografia e Etnologia, seja amigo de idiomas (pense em mandarim!), aproveite oportunidades de viagens internacionais (viagens em baixa estação para EUA ou Europa podem ser mais baratas do que viagens em alta estação para o Nordeste (misture-se com a população local e mantenha contatos pós-viagem (pense em intercâmbio família x família, para otimizar a adaptação a novas culturas e costumes e criar novos círculos de amigos); não hesite em se casar com um parceiro de um outro continente....
Quando atuante em uma empresa, compartilhe o aprendizado em outras culturas com subordinados, colegas e superiores. Negocie com a empresa uma ajuda de custo para uma pós-graduação nos exterior, convencendo que você vai reverter o ganho para ela mesmo.
Quando à frente de uma empresa, unidade de negócios ou área, dê voz às pessoas de culturas diferentes na formulação de Visão, Missão e Valores e aproveite a participação de pessoas com visão e/ou vivência multicultural, na formatação de um modelo de gestão multicultural.
A promoção da diversidade apresenta-se como opção estratégica para alcançar objetivos como: desempenho financeiro sólido (constatado pelo próprio Ministério do Trabalho, 2003), maior produtividade e mais criatividade. E mais, a diversidade multicultural representa uma exigência do mercado “sem fronteiras”. A globalização vem aumentando o volume do comércio internacional e o número de fusões internacionais. O impacto é a busca cada vez maior de competências multiculturais, para não dizer globais.
Líderes e talentos globais atravessam fronteiras e superam barreiras multiculturais.
Uma equipe diversificada permite que a empresa aumente suas oportunidades de negócio e encontre soluções inovadoras. Membros de grupo que pensam, sentem e agem parecido, tornam-se insulares em suas idéias (experimento na University of Michigan). Possuindo dentro da empresa pessoas que entendem diferentes desejos e necessidades em novos mercados, segmentos, nichos e clientes, a empresa pode se aproveitar de raciocínios e estratégias diferentes que melhor atendem às respectivas demandas e levam o negócio a resultados surpreendentes. Times de futebol europeu já experimentaram casos de sucesso com a inclusão de jogadores brasileiros ou africanos no elenco.
Como já dizia o estrategista do império chinês, Sun Tzu, em seu livro “A Arte da Guerra”: Para se vencer uma guerra é preciso conhecer muito bem o inimigo.
Por sua vez, equipes distintas pela diversidade são mais atraentes para talentos que chegam e ficam nas empresas, formando um "mix" que traduz a contribuição de cada um, gerando uma sinergia que transcende o somatório de contribuições individuais: '1+1=3'.
As empresas brasileiras precisam reconhecer a realidade multirracial e multicultural que caracteriza a população brasileira. Diante de um cenário econômico cada vez mais exigente, é preciso que se invista e explore o potencial que a diversidade dessa população representa. Não seria esta a oportunidade de compensar o chamado “custo Brasil” por “benefício Brasil”? |